BONS TEMPOS
O tempo é implacável e não nos devolve o que já passou. Temos, porém o poder de rememorar. A lembrança nos transporta num piscar de olhos, para os dias que nos marcaram, mantendo acessível um mundo que já se foi.
Histórias, todos a têm, mas esta é uma narrativa da minha longa viagem na vida de estudante. Memórias que retratam minha infância, uma época que deixou muitas saudades e lições valiosas para toda a vida.
Tudo começou com seis anos de idade na Escola Infantil José de Almeida na cidade de Cacoal em Rondônia, lugar onde nasci. E como não poderia deixar de ser teve início com muitas lágrimas na porta do jardim de infância. Mas essa primeira impressão logo mudou, pois me recordo do carinho com que fui recebida pela professora, que na época eu chamava de tia.
Ela me acalentava e passava muita confiança dizendo que eu estava no lugar mais seguro depois da minha casa. Que as horas iriam passar, mas que meus pais viriam me buscar.
Havia muitas atividades que me envolviam todo o período da tarde e a que eu mais gostava era brincar de casinha com minhas colegas debaixo de uns pés de flores com uma vassourinha do meu pequeno tamanho. Também aprendi a cantar muitas canções. O uniforme era uma saia pregueada xadrez, camiseta branca e uma bolsinha do mesmo tecido da saia com o meu nome bordado. Dentro dela eu levava uma escovinha de dentes, um copo de plástico e uma toalhinha que servia para forrar minha mesinha. Na minha carteira minha professora colocava um pedaço de cartolina escrita o meu nome: SELMA.
Infelizmente o ano passou muito rápido e foi muito difícil dizer adeus a minha tia, pois pra mim ela era mais presente que muitas tias da minha família.
Fui para primeira série na Escola Clodoaldo Nunes de Almeida, que era muito longe da minha casa, mas meus pais a escolheram por ficar em frente ao local onde meu pai trabalhava.
Também foi muito complicado começar tudo de novo, nova escola, novos amigos e nova professora. Lembro-me que na sala de aula eu era muito dedicada e adorava ajudá-la.
Muito curiosa, vivia fantasiando as coisas e tudo era motivo para perguntar: por quê? Por quê? E minha professora com sua paciência pedagógica, repetia e explicava quantas vezes fosse necessário até eu aprender.
Usei a cartilha da PIPOCA que guardei durante muito tempo como recordação. Cada letra que aprendia eu ia descobrindo o mundo e aos poucos sendo alfabetizada.
Nessa época minha professora nem imaginava que tudo que eu aprendia em sala de aula era ensinado para minha mãe em casa. Na hora das tarefas ela sempre estava ao meu lado, mas era eu que ensinava minha mãe, pois ela não tinha estudo e estava sendo alfabetizada junto comigo.
Cursei a segunda e terceira séries na Escola Concórdia, uma escola particular onde os estudos eram mais avançados do que na rede pública. Dessa época tenho recordação de querer ler tudo que tinha na minha frente, principalmente as fachadas das lojas, então meu pai acelerava pra eu ler mais rápido.
Que engraçado, o conhecimento é mesmo incrível, muitas vezes quando queremos esquecer ou apagar alguns momentos, nossa memória é rebelde e não nos atende.
Em 1987, na quarta série fui para Escola Cora Coralina o tempo que me deixou mais saudade, estudei até a oitava série. O prédio era perto da minha casa tinha acabado de ser inaugurado, era maravilhoso com um grande pátio e uma rampa para o segundo andar, quadra e biblioteca, sem contar à merenda que ainda posso sentir o gosto daquelas comidinhas deliciosas.
Eu ia e voltava a pé sozinha de casa para a escola, pois não havia violência, na verdade nem pensava que poderiam existir as maldades de hoje contra as crianças. Foi uma infância de sonhos vivida realmente como uma criança deveria viver.
Em toda minha vida sempre admirei e tive muito respeito pelos professores, nas brincadeiras eu sempre era a professorinha e chegava a dar aulas de reforço para os meus vizinhos e amigos que não assimilavam bem a matéria na escola. Desses amigos alguns são presentes até hoje, mesmo que por telefone ou internet.
Sempre estive envolvida com minhas turmas sendo a líder ou vice-líder da sala e não posso deixar de mencionar a Diretora inesquecível que se chamava Miriam, que sempre me recebia com muita atenção e compreensão.
A quinta série foi um grande desafio pra mim, pois passou a ter muitas disciplinas além das que eu conhecia. Programa de Saúde, Educação Moral e Cívica, Educação Agrícola, Educação Artística e Educação Física eram alguma delas.
Nesse período aprendi ampliar desenhos e fazia o mural de datas comemorativas, ficavam lindos e eu me sentia realizada. Chegava a ficar na escola quase todo o dia envolvida com projetos de festas, teatros e disciplinas contra turno.
A matéria que eu mais me identificava era História, achava incrível saber do passado dos lugares e das pessoas, seus comportamentos e culturas.
A Educação Física era o meu desespero, pois eu não gostava nem um pouco de fazer exercício, jogar vôlei ou basquete. Eu era péssima e na hora de escolher os colegas apontavam para os outros e eu sempre ficava para trás. Realmente estudar no Cora Coralina foi muito marcante, cantávamos o Hino Nacional na segunda-feira, o Hino do Estado de Rondônia na quarta-feira e o Hino do Município na sexta-feira.
Recordo-me que alguns alunos ficavam fora da escola para não participar, dessa hora cívica, mas não tinha jeito depois que todos entravam para as salas era aberto o portão e quem chegava atrasado cantava sozinho no pátio. Chegava ser engraçado.
Já na oitava série o professor que mais me lembro foi o Marlon, de matemática, ele era amigo de toda a turma e nos ajudava muito, parece que todo mundo conseguia assimilar bem os cálculos e havia uma grande disputa para tirar a melhor nota. Fazíamos uma caderneta anotando as notas pra ver quem era melhor. Isso levava a turma toda a estudar muito. Acho que vem daí o fascínio por números.
Infelizmente não conclui o ano com aquela turma de tanto tempo porque nos mudamos para Vitória no Espírito Santo quase no fim do ano. Fiquei muito triste e me lembro de um dia que o carteiro chegou e começou a me entregar uma, duas, três... Mais de vinte cartinhas, uma de cada aluno, nossa foi emocionante, ou melhor inesquecível.
Me sentia uma intrusa na nova turma, sem contar que o conteúdo que eles estavam aprendo eu já havia estudado. Enfim, conclui a oitava série na Escola Joaquim Barbosa Quitiba e como não poderia deixar de ser nos mudamos de novo, agora para Linhares, interior do estado.
Em 1992 iniciei o segundo grau na Escola Emir de Macedo Gomes no curso Acadêmico. Dessa época me lembro muito do professor Holynto de História, pois ele era muito polemico, fazia agente pensar e muitas vezes duvidar dele, daí a busca em pesquisar para comprovar se ele estava falando a verdade ou não.
Também me lembro da professora Vera Degan, de Literatura, que me fez amar essa matéria. Não me esqueço do dia em que tive que recitar uma poesia, sem a ajuda do material e fazendo as entonações.
O meu poeta foi Gonçalves Dias e me foi determinado que encontrasse a sua maior poesia e a decorasse. Foi ai que encontrei “O canto do Piaga”. Sei até hoje grande parte dos seus vinte versos... Ó guerreiros da Taba sagrada; Ó guerreiros da tribo tupi; falam Deuses nos cantos do piaga; Ó guerreiros, meus cantos ouvi.
Não havia internet nem não pouco computador nas escolas, tudo era pesquisado nos livros, passávamos horas dentro das bibliotecas, lendo e anotando.
Infelizmente não conclui o segundo grau com minha turma mais uma vez porque nos mudamos de volta para Rondônia, dessa vez para Rolim de Moura, onde meu curso passou a ser o Colegial.
Na Escola Cândido Portinari em 1994, meu estudo não evoluiu nada no último ano, pois tudo que eles estavam estudando eu já havia aprendido. Fui aprovada, ou melhor, passei, mas não era bem assim que eu queria concluir, tinha sede de aprender mais. Não tive formatura, nem fotos, nem festa.
Foi o primeiro ano que estudei no turno da noite, porque tive que arrumar um emprego para ajudar os meus pais, pois a situação financeira não estava fácil.
Depois de tentar alguns vestibulares, cheguei a passar na ULBRA para administração, mas era particular e não tive condições de cursar.
Desde 2001 moro no Mato Grosso nessa cidade linda que é Lucas do Rio Verde. Passei no primeiro vestibular da UNIVERDE e cursei Ciências Contábeis onde me graduei como Bacharel.
Mas pensa que foi fácil. Nada disso, houve muitas superações, principalmente no primeiro semestre onde um professor de Matemática fez quase a metade dos alunos reprovarem e desistir do curso.
Conclui o curso, mas ainda não me sentia realizada, foi então que soube do vestibular para Pedagogia pela UFMT. Fui aprovada e acredito ser a minha realização profissional, pois quero ser uma eterna estudante e se existir uma profissão que vive em constante aprendizado é a de professor.
O tempo não pára e acredito que tudo tem sua hora. Transcorrido tantos anos, estou no início de mais uma caminhada escolar, agora com um desafio novo que a educação à distância. Pretendo concluir o curso e me especializar em várias áreas da educação, buscando me tornar uma grande educadora para meus futuros alunos.
Como foi bom relembrar, voltar no tempo até a minha infância. Registrando minhas memórias pude reviver emoções e sentimentos únicos. Hoje cursando Pedagogia compreendo que a cada atitude dos meus mestres escondia-se um ensinamento.
De certo modo, como meus pais, meus professores me preparavam para o movimento da vida. Incentivaram-me e me exigiram quando sabiam que eu podia render mais, indicaram direções possíveis e os prováveis perigos, foram meus exemplos.
Busco palavras que possam expressar o tamanho da minha saudade e gratidão. Chega dá um nó na garganta saber que aqueles momentos mágicos, até de irresponsabilidade, não vão voltar e passou tão depressa que não deu tempo nem de agradecer.
Depois de mais de vinte e seis anos, não resisti e fui visitar a escola Cora Coralina e Concórdia. Elas continuam lá, com muita vida, muita alegria, cheia de alunos, com muitas mudanças, com o mesmo ritmo e se posso dizer até com o mesmo cheiro.
Com um aperto no coração, entrei na escola Cora Coralina, parecia que iria reviver tudo de novo, mas não havia mais ninguém lá, cada um dos meus amigos e professores seguiram seus caminhos. Restou minha história.
Em cada ano que se passou houve amigos em especial como a Sheila, Leonardo, Sérgio e Regiane. Cada um no seu tempo, mas que deixaram muita saudade.
Esses momentos passados, somados, construíram o que sou hoje, mas que não deixo de ser aquela criança que começou no jardim de infância.
Hoje sou a biblioteca viva da minha própria biografia de estudante. Desembrulhando minhas lembranças, guardo esse tempo que nenhum tempo há de apagar.
Espero que nas recordações de meus alunos, possa ser lembrada como uma professora que marcou por ser uma ótima profissional e amiga. Que eu consiga contribuir para formar cidadãos conscientes de seus papéis na sociedade e na vida. E que ao final de suas jornadas escolares possam dizer que viveram bons tempos como eu.
quarta-feira, 3 de março de 2010
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